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sexta-feira, julho 12, 2013

sobre a exaustão das retinas

ja não me diz nada um por do sol em cancun
e um coqueiro em alto-mar já vagou por protetores
de tela demais para me causar qualquer sensação
de bem-estar; os casais parisienses que habitam
calendários já não me dão sequer vontade
de ir a paris assim como não me comovem
mais as crianças de sebastião salgado nem
a menina que foge do ataque do napalm
e que em breve estampará cangas e biquínis;
as imagens estão gastas e não há nenhuma

que erga pontes como a palavra que.

Gregório Duvivier

segunda-feira, março 19, 2012

Gregórios

Ahh é verdade... Além do Gregório há na vida outros Gregórios. Mas fico pasma com especialmente com este Gregório.

Ele consegue me fazer rir sem tentar.

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bernardo
A situação era desesperadora. Todos estavam certos de que tinham chegado ao fundo do poço. E eis que ouve-se, ao fundo, a voz de Bernardo Jablonski: "Calma, gente, podia ser pior." Todos se viram para ele, esperando ansiosamente a continuação da frase. E ele: "Não me ocorre nada agora, mas podia". E esse era o Bernardo: uma voz sempre calma e irreverente, equilibrando perfeitamente acidez e afeto, senso crítico afiado e um profundo amor à vida. Quando gostava de alguém, trazia a pessoa para perto, pela vida toda. Era muito bom ser gostado pelo Bernardo. Fazia a gente gostar mais da gente. E talvez por isso ele seja tão amado. Porque ele amava, profundamente, a vida, o teatro e todos nós.


Texto extraido do blog do Gregório Duvivier - Rua Caio Mario


o meio de todas as coisas
entre o fim do começo e o começo
do fim toda coisa tem uma massa
inerte feito ponte pela qual
passamos distraídos – ou não:
os astecas sentiam chegar o exato
momento do meio da vida – o meio
do meio da vida, o momento em que
o que já vivemos é exatamente
igual ao que ainda não vivemos
– e nesse momento preciso o mais
comum dos astecas sentia uma súbita
e inexplicável vontade de tomar um trem
mas como ainda não o tinham inventado
ele acabava por entristecer-se
(daí a tristeza, essa vontade de algo
que ainda não inventaram)

(A Partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora, 7Letras, 2008)


Sobre construir janelas
(para Paulo Henriques Britto)

Erguer antes de tudo uma parede –
a parede no caso é importantíssima,
pois as janelas só existem sobre
paredes, as janelas sobre nada

são também nada e não são sequer vistas.
Em seguida quebrá-la até fazer
nela um grande buraco, não maior
que a parede, pois precisamos vê-la,

nem menor que seus braços – as janelas
sobre as quais não se pode debruçar
não são janelas, são buracos. Pronto.

Ou quase: agora basta construir
um mundo do outro lado da parede,
para que possas vê-lo, emoldurado.



Gregorio Duvivier é ator, poeta, nasceu no dia 11 de Abril de 1986 e mora na Gávea. É formado em Letras pela PUC-Rio, embora nunca tenha ido buscar o diploma. Seu primeiro livro, “A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora” foi publicado pela 7Letras. Era para ser um livro póstumo, mas para isso era necessário que ele morresse. Como Gregório tem pavor de gilette e de grandes alturas, seu próximo livro só será póstumo se deus quiser e contribuir com um acidente de carro ou uma pneumonia.


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Já deu pra perceber que gosto de textos um pouco sem noção, mas que são capazes de fazer nós percebermos o quanto somos inteligentes e o autor mais ainda...

Eu viajo nos textos e poesias do Gregório. Ou seja, eu adoooooro. Por isso publiquei trêsDeVez.

E isso é tudo pessoal!
Beijos

Juliene Tesch
@JulieneTesch

quarta-feira, abril 06, 2011

Quando se perde um braço ou uma perna

quando se perde um braço ou uma perna
o membro perdido continua a coçar, reza
a lenda e a revista super interessante, e eu
que nunca amputei um braço ou uma perna
mas já perdi de vista algumas partes de mim
mesmo de vez em quando sinto coçar pessoas
que eu perdi de vista porque foram morar longe
cansaram-se de mim ou morreram de desastre


Gregorio Duvivier
(poema publicado no jornal O Globo 23/10/10, Prosa e Verso, Coluna Risco p.3)